História
da Carne de Sol
Para
tentar relatar a história da
carne-de-sol em nosso site, tivemos
como base o livro “A História
da Alimentação no Brasil”,
do mais importante pesquisador do folclore
e dos costumes populares brasileiros,
o norte-rio-grandense, Luís da
Câmara Cascudo.
Segundo Cascudo, a carne-seca pela
exposição solar é
pré-histórica, mas posterior
à exposição ao
lume. A primeira carne secou sendo aproximada
do fogo e não do calor solar.
No Brasil dos primeiros séculos
a menção é mínima.
Evreux fala que no Maranhão secavam
peixes ao sol. A maioria absoluta era
ao moquém. Para o folclorista,
não parece que a “nossa
carne-do-sertão, carne-de-vento,
carne-de-sol” habitual nos sertões
tenha sido uma influência indígena.
O português possuía a tradição
de secar ao sol frutas, notadamente
peixes e sequeiros de bacalhau. Do peixe
passou às carnes, utilizando
a mesma técnica. Nasceria esta
na orla do mar, entre pescadores, conservando
o pescado para revendê-lo para
o interior. O sol do Brasil, que justificaria
o processo, não o determinou
para os indígenas. Apesar de
uma ou outra informação
fortuita, o indígena não
salgava carnes e peixes para conservá-los.
Era condimento raro. O mesmo ocorria
na Ásia, África, Polinésia,
e Melanésia. Salgar seria elemento
do ciclo da agricultura, imposto pela
deficiência do cloreto de sódio
nos cereais. Assar a carne em cima da
fogueira, atravessando-a pela vara;
espeto, e o fogo aceso sobre a laje,
teria sido, evidentemente o primeiro
fogão, cozinha e aquecimento.
A provisão mais vulgar do Brasil
é a carne-seca, de sol, de vento
ou do sertão, do Ceará,
charque, jabá, carne de gado,
salgada, exposta ao sol e vento brando,
e com alguma duração (*).
A forma tradicional portuguesa, além
do fumado que se destinava às
peças isoladas, em quantidades
reduzidas, era a salga com salmoura...
dali tragian muitos gaados mortos que
salgavam em tinas, informava Fernão
Lopes (Crônica de D. João
I, 1, CXV).
As mais antigas referências são
do século XVII. Constituem uma
base normal para a alimentação
coletiva em todo o país. Arribando
à Bahia, agosto a outubro de
1610, Pyrard de Laval elogiava sem restrições:
“É impossível terem-se
carnes mais gordas e tenras e de melhor
sabor. Verdade é que são
os mais belos e os maiores bois do mundo.
Salgam as carnes, cortam-nas em pedaços
bastante largos, mas pouco espessos,
quando muito dois dedos de espessura,
se tanto. Quando estão bem salgadas,
tiram-nas sem lavar, pondo-as a secar
ao sol; quando bem secas, podem conservar-se
por muito tempo, sem se estragar, contanto
que fiquem secas (...)”.
Martius em 1818, informava: “A
carne cortada em tiras estreitas, esfregada
com sal e seca ao sol, é um importante
artigo de comércio dos portos
de São Paulo e Rio Grande do
Sul para os portos do Norte, sobretudo
para o Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco
e Maranhão, onde, com o nome
de carne-seca do sertão, paçoca
ou carne charqueada constitui uma parte
principal da alimentação
de todo brasileiro, especialmente os
escravos negros”.
O Rio Grande do Norte e o Ceará
disputaram a iniciativa de industrialização
da carne-de-sol no Nordeste quando,
sem nome especial, já nos finais
do século XVII, iam barcas de
Pernambuco aos rios Assu e Mossoró
carregar “carne-seca de boi”.
Semelhantemente ocorria no Ceará,
ambas as Capitanias com salinas naturais
e grande rebanho bovino. Em 1788 o Capitão
General de Pernambuco, a quem as capitanias
eram subordinadas, permitiu a indústria
das carnes unicamente do Aracati para
o Norte. O nome de carne-do-ceará
popularizou-se. As antigas Oficinas
de Mossoró e Assu ficaram como
topônimos reveladores da atividade
desaparecida no plano de extensão.
Claro que essas “Oficinas”
e a piauiense de Parnaíba decaíram.
Já em 1780, um cearense, José
Pinto Martins de família possuidora
de fábricas de carne, instalou
a sua à margem direita do rio
Pelotas, no Rio Grande do Sul, criando
a indústria que se desenvolveria.
As repetidas secas, dizimando o gado,
foram diminuindo a produção
cearense enquanto a do Rio Grande do
Sul prosperava incessantemente.
Vinha a carne do Sul trazendo a denominação
quíchua de charque, dominando
o mercado nortista. Mais salgada, mais
rija, menos cuidada. O gado era outro
assim como os pastos.
Todas as províncias nordestinas
produzem carne-de-sol para o consumo
local, embora sem satisfazê-lo.
É tão indispensável,
e talvez mais na simpatia sertaneja,
que a própria carne verde, fresca.
Servem-na sob as mesmas formas da outra,
prestando-se a todas as iguarias e combinações.
A típica é assada, comida
logo depois de assar, com farofa, coentro
verde e cebola, também com o
pirão de leite ou feijão
verde. Característica nos cozidos
e feijoadas. Dá o gosto inconfundível.
(*) A diferença entre a
carne de charque, do RS e as congêneres
do Norte está na quantidade de
sal durante a preparação
e maior tempo na exposição
solar. Dura, evidentemente, muito mais
que a carne-do-sertão, de sol,
etc., mas o sal lhe dá maior
peso e menos digestão para o
consumidor.